Foto: Sérgio Costa
Primeiro era apenas mais um. Só um barulho. Parecia um rádio. Mas rapidamente todos viram que não era. A mulher estava sentada nos primeiros lugares do ônibus, na janela, com uma criança dormindo no colo. Talvez fosse netinha dela.
Além do barulho, foi a voz dela que chamou atenção.
- O que foi? - Ela perguntou para quem estava do outro lado da linha. E do outro lado da linha não teve resposta. Só mais barulho. Era um choro. No nervosismo, mesmo com o telefone no ouvido, ela não deve ter notado que estava no viva-voz. Todos notaram. E se entreolharam tentando entender.
- O que foi? Tenha calma...
- Eu não tô legal, mãe...
- Me diga o que foi, tenha calma... - Agora com a voz cortando. Como que não quisesse demontrar pra filha que também estava nervosa. No barulho do ônibus ela precisava falar alto. Todos ouviram. Principalmente a mocinha que estava do lado dela e que virou a cabeça pro lado contrário. Como se assim não fosse ouvir.
Parecia não querer ouvir.
Ela, do outro lado da linha, demorou alguns segundos pra conseguir falar. Os soluços atrapalhavam:
- Eu tô me sentindo muito sozinha, mãe... - E parecia estar. A tristeza era grande. Todos perceberam.
- Tenha calma que eu tô indo praí
(choro...)
- Tenha calma que eu tô chegando... - A senhora não conseguia desligar o telefone. Parecia que se o fizesse iria abandonar a filha, era difícil não poder fazer nada naquele momento.
(soluços)
- Daqui a meia hora eu chego aí...
Terminou a ligação. Cheguei ao meu destino. Desci. Ela seguiu o dela.
Mas qual será?
Isso até poderia ter saído de minha cabeça. Mas aconteceu mesmo. E não saíu mais da minha cabeça...
Um comentário:
é como em 'linha de passe': será que ele fez o gol? será a que a sandra corveloni teve uma filha? será que o neguinho encontrou o pai? é uma maneira de participarmos da história...
Postar um comentário